segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Terá sido só um sonho [ruim] ?

Eu acordei ao lado dele, me sentindo protegida pela primeira vez.
Olhando-o ali pacificamente adormecido eu comecei a divagar sobre a noite anterior.
Ele parecia ser tudo o que eu sempre sonhava, desde o princípio. Talvez fosse bastante diferente dos outros por ser tão exagerado em características positivas. Ele era excessivamente doce, mas não do tipo que enjoa. Era lindo, lindo mesmo, mas a cada elogio que eu fazia ele reagia como se nunca tivessem-no elogiado antes. Ele era brilhante e não se gabava. Ele bebia e fumava e eu fingia que isso não me incomodava.
A verdade é que nós nos observávamos, mas tínhamos medo de agir até o início daquela semana. Não sei nem explicar bem as sensações dicotômicas que meu lépido e involuntariamente pulsante coração sentia. Se hora eu acreditava piamente que aquilo era certo, no outro momento eu esperava que tudo acabasse dando errado, porque isso era o que eu estava acostumada.
Pois então, ele finalmente parou de só me olhar e tudo pareceu efeito de camêra lenta, sabe? Não sei explicar direito. Foi uma mistura de euforia e desespero. Pronto, esta aí é uma ótima definição para minhas femininas emoções ao ver os olhos dele tão dominantes e impiedosos sobre os meus frágeis e pacatos. Eu o olhava e a boca dele abria e emitia um som que de início eu mal reconheci. Que tola! Era o meu próprio nome na boca daquele perfeito estranho.
Eu fiquei parada no meio da rua com a maior cara de pamonha do mundo. Era comigo que ele falava? Talvez não. Então a medida que nos aproximamos eu percebi que era eu, tinha que ser eu.
Ele segurou minha mão e disse oi, como se nós nos conhecêssemos.
Eu não pude conter o riso, é essa minha primeira reação quando eu fico constrangida. Então eu respondi um oi meio estranho e ele me perguntou se eu não conhecia o Ítalo, um amigo que tínhamos em comum. Eu disse que sim e ele deu seu sorriso petrificador e me disse que sabia, que nem entendia porque tinha feito aquela pergunta se fora o próprio Ítalo que o informara o meu nome.
Fiquei ali parada pensando que ele era meio psicopata. Mas eu era uma daquelas garotas que tinha necessidade de se meter em confusão. Talvez fosse porque sendo jovem a vida não tem graça sem excessos, ainda que momentâneos.
Então a semana passou de forma lenta e nós nos tornamos inseparáveis. Pode parecer absurdo, eu sei. E no fundo a nossa história é, mas eu direi o porquê depois. De qualquer forma éramos isso: nós. E cantávamos canções sentados na grama, e ficávamos horas no telefone...
E eram beijos infindáveis com aquele gosto de coisa nova, com uma avidez, uma necessidade de mais que não parecia me pertencer, mas sim me possuir.
Então numa tarde embaixo de um velho carvalho numa pracinha ele me olhou sério e me indagou o que tinha me feito mais feliz até ali. Eu nem pensei. Eu hesitei. E não disse que era ele, mudei de assunto.
Ele pareceu não se importar e foi gentil como só um verdadeiro homem poderia ser. Ele riu das minhas piadas bobocas e me fez sentir bem comigo mesma, mas é preciso que entendas...
Um coração ferido nunca volta ao seu tamanho original... Ou se expande ou se retrai.
Eu mergulhei naquilo de uma forma tão profunda que mal podia me lembrar que o tempo era curto, mas que isso não significava que não nos conhecíamos.
Só uma alma sabe reconhecer na outra uma parte tão sua e tão alheia a si que o tempo se torna uma abstração. Eu me sentia, e não sei pôr isso de outra forma, casada com ele. Como se fosse assim dali em diante, festas e raivas seguidas de silêncios confortantes e que nosso amor tivesse essa explosiva tensão, como se fosse um pêndulo constante entre o terno e o grotesco.
Nos equilibrávamos. E foi por isso e só por isso que eu me entreguei a ele, que sem saber ao certo como, eu estava ali, desprotegida e segura simultâneamente.
Foi aí que eu acordei e comecei a me lembrar de tudo até ali. Levantei, fui ao banheiro, lavei meu rosto, escovei meus dentes e troquei de roupa. Mas as memórias de feridas tão atemorizadoras e doídas me fizeram refletir sobre aquele momento. Se um sonhador imaginando a coisa amada vive de ilusão, não seria para ele, a ilusão uma realidade? Será que ele não perceberia que vivia sonhando e não propriamente vivendo? E que vida é essa pautada em ilusões?
Eu era a sonhadora e ele a coisa amada.
Eu sabia que essa doçura um dia findaria, que nada poderia ser melhor do que aquilo e que pouco a pouco ele iria me decepcionar ou eu a ele. Eu tinha muitas expectativas e muito medo de sofrer. Eu o amava, não duvide disso. O amava o bastante para pensar no quão ruim aquilo, que de tão bom era, poderia se tornar. Deixei pra ele uma canção que eu fiz sobre a cômoda empoeirada dizendo que o erro não fora dele ou meu, mas sim do amor sentido, tão belo e tão finito que eu faria durar para sempre...
Peguei minhas coisas e parti aos prantos, percebendo que com meus vinte e poucos anos, eu morri pela primeira vez.
Culpa do excesso da minha excitação juvenil, meus olhos agora quase cerrados vêem que esse amor por ele que até hoje eu sinto só foi permitido porque eu vivi sonhando. Se um sonhador imaginando a coisa amada vive de ilusão, não seria para ele, a ilusão uma realidade? Será que ele não perceberia que vivia sonhando e não propriamente vivendo? E que vida é essa pautada em ilusões?
Não sei.
Mas esse foi o amor maior e mais doce que eu tive.

2 comentários:

  1. E então foi o fim por amor.
    Own, peixe, que lindo!

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  2. Eu sempre achei esse texto mara.
    Odeio quando a gente se apaixona pela pessoa que parece tão certa, que a gente se sente errada. :D

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