quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Pascarigudum


Maestro Zezinho levava este nome desde quando se mudou pra cidade, ninguém sabia exatamente o porquê da denominação, mas todo mundo ia conforme a dança. Logo que pisou pela primeira vez na terra seca daquele lugar, encontrava seu coração inundado de paixão por Dorinha, uma menina dos cabelos dourados como o Sol.
Dorinha dizia que não queria nada com Maestro, porque que diacho de maestro vai pra roda de samba toda sexta feira e não canta, tampouco tira uma moça pra dançar? Principalmente dona Rosinha que se assanhava toda pro lado dele e ele todo frouxo não fazia era nada.
Rosinha se enrabichou por Maestro desde que o viu na venda de Seu Joaquim da primeira vez, ela sentia suas sardas quentinhas quentinhas quando ele passava por ela, mas ele nunca deu bola. Ela usava saias curtas, vestidos de chita rodados que sua mãe costurava e nada nada.
Um dia Rosinha revoltou-se e tingiu os cabelos de dourados, parecendo os de Dorinha, dona Zefa, do salão, disse logo que o rosto dela se iluminou com a nova cor e ela saiu serelepe pela cidade, arrancado assovios de todos da rua, uns conhecidos e outros nem tanto. Foi pra roda de samba e dançou até se acabar, não ligou muito pra Maestro, que como sempre tava sentado na cadeira vendo as mocinhas rebolarem e os homens babarem sobre elas.
Zezinho passou a ver Rosinha antes mesmo dela tingir os cabelos, via o assanhamento dela e até apreciava ver uma menina tão devota a ele. Às vezes, não sabia ele se era pra judiar ou porque ele amava, passava pela menina só pra ver suas bochechas corarem e o olhar dela seguindo ele. Na verdade, dizia pra si mesmo que era porque ele gostava de judiar de menininhas apaixonadas, mas bem no fundo ele gostava daquilo.
Quando viu Rosinha toda cobiçada, cheia de rapazes cercando-a, sentiu um nó na garganta que nunca sentira quando Dorinha dançava com os outros rapazes. Uma fúria foi tomando conta de Zezinho e ele percebeu de uma forma até meio imbecil que o objeto da afeição dele era Rosinha desde o começo, ao invés de arranjar briga com os cabras machos que a cercavam, levantou-se e estendeu sua mão na frente da de todos os cavalheiros, que deram espaço pro novato estrear na pista.
A música era um forrózinho pé-de-serra que se dança bem juntinho da pessoa, Maestro sentiu a bochecha quentinha da moça contra a sua e suprimiu a vontade dele de moço de cidade grande de agarrar a menina ali na frente de todo mundo, dançou mais umas três músicas seguidas.
Ela não sabia o que pensar mais sobre a vida, o mundo de repente tinha dado uma rodada arretada e ela não sabia se tava lesa ou se o mundo tava rodando bem rapidão.. Maestro cochichou no ouvido dela que queria acompanha-la até em casa e o corpo todo arrepiou, ele sentou-se de novo, respirando bem muito e arrancando até aplauso do povo.
Maestro acompanhou Rosinha, que tava toda encabulada de andar do lado do moço por quem ela tinha tanto afeto, ele ficou contando pra ela histórias sobre as estrelas do céu, que ela não conseguiu compreender por inteiro, mas achou bonita por demais. Eles ficaram em silêncio por um segundo e ela disse que gostou de ter dançado com ele.
“Foi uma surpresa boa demais”, foram as exatas palavras dela.
“Você também, Rosinha”.
Ele só olhou enquanto ela baixava a cabeça e ficava vermelha que nem tomate cereja, ele se perguntou se os lábios dela seriam tão saborosos quanto, mas logo baniu o pensamento, ao ver que não era próprio pensar dessa forma sobre a menina.
Rosinha não sabia nem o que dizer, então foi logo desviando o tópico da conversa pra perguntar por que raios todo mundo chamava ele de maestro. Foi a vez dele de ficar todo vermelhinho e ela só o olhou.
Maestro Zezinho foi instruído por um de seus amigos boêmios da cidade grande de se apresentar como tal, para que as meninas pensassem que ele tinha algum título de importância, mas na verdade o tal amigo o considerava um maestro por coordenar tão bem cada um de seus movimentos pra ele conseguir conquistar as mocinhas ingênuas. Ele só balançou os ombros e disse que não sabia muito o porquê daquilo.
Ela chegou pertinho dele, pra sentir um cheiro tão abestalhante que deixou ela meio sem ar, deu boa noite e ainda meio lesada do cheiro ela pediu-lhe um beijo, assim, como se pedisse carne no açougue.
Zezinho hesitou, conhecia o pai da menina e não queria perder o respeito dos dois por tomar uma atitude como essa, sabia que a menina era tímida e os olhos dela pareciam vidrados olhando pra ele, ávida por uma resposta, ou um beijo... Ou talvez os dois ao mesmo tempo se isso fosse possível.
Rosinha prendeu a respiração, jogou os cabelos pra trás e ficou olhando pra ele, que pela cara parecia que tava fazendo uma conta bem difícil na cabeça, perdeu as esperanças e fora longe demais falando aquilo. Ela quis chorar e sair correndo, mas era como se tivesse um jumento sentado em seus pés.
Zezinho viu a feição da moça mudar para uma mais apavorada e pensou: “foda-se tudo isso, eu tenho mais é que amar essa moça do jeito que ela merece” e lascou-lhe um beijo nos lábios de fazer inveja no artista de cinema.
Rosinha viu o moço se aproximando e sentiu que queria sair correndo de novo, ela nunca tinha feito isso antes e tava mais apavorada do que rato quando via cobra... Mas aí o lábio dele encostou no dela  e ela se acalmou. DaÍ então bem entendeu porque chamavam o rapaz de maestro porque quando ele a beijou, ela sentiu um ziriguidum estranho dentro dela e parecia que até as tripas tavam caindo no samba estranho que ele tava mostrando pra ela, mas nunca saindo do controle.
Ele também se entregou à melodia que a menina tava fazendo o corpo dele todo dançar e ali, naquele momento, nada importava mais...
O mundo acabaria em samba.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Mal traçadas linhas...

L.

Três meses. Em três meses, você vai estar casado. É só o que me faltava. É só o que me faltava mesmo. Ás vezes eu acho que o universo está querendo que eu mude de frequência, que eu pare de acreditar nas porcarias que eu acredito e que sofra muito pra finalmente cair na realidade.
Ontem quando eu vi seu rosto na multidão, meu bem, eu lembrei porque eu me apaixonei por você e pensei que você fosse o amor da minha vida anos atrás. Eu entendi porque você é o meu "the-one-that-got-away". É porque você tem a mesma paixão por viver que eu tenho, é porque você é receptivo, caloroso, gente boa, autêntico, bem humorado, corajoso, tem um gosto diversificado e respeita os gostos alheios, porque você vive sorrindo e é inteligente, eloquente, empenhado, comunicativo e ainda torce pro mesmo time de futebol. É sua aura, seu jeito despojado, descomplicado, fácil de entender, sem drama. Você é uma pessoa que me faz sorrir só de te ver, sabe? Você faz com que eu te conte minhas idiotices e me preocupe com você e sempre queira estar do seu lado. Foi por isso que eu me apaixonei, por todo esse conjunto, pela tua personalidade amável, por você ser meu semelhante, minha versão masculina, desprendida e mais baixinha. Meu amor. Mesmo que nunca tenha sido, sempre foi, mesmo que nunca vá ser, sempre será. É algo simplesmente impossível de explicar, mas se eu fosse obrigada a tentar diria que é maior do que um amor de amizade e que não chega ao amor de uma mulher pra um homem, embora eu tenha demorado um bom tempo pra conseguir separar uma coisa da outra... Só sei que eu te amo, assim, incondicionalmente, e isso é muito louco. Você me traz uma paz absurda, é ridículo.
Você sabe que eu amava ele, não sabe, que ele sim era pra ser o amor da minha vida, né? Você disse que estaria aqui pra me ajudar a lidar com isso se eu precisasse terminar e, no entanto, você está caminhando em lentos passos pra fora da minha vida. Você não vai ter mais tempo pra ser meu melhor amigo, você vai ser o marido de alguém agora, daqui há um tempo pai de alguéns, tenho certeza. Você vai dar um ótimo pai, sabia? 
Mas voltando, já estava me doendo e me corroendo por dentro o fato de ele não ter me dado valor, não ter conseguido se tornar um pouco mais parecido com você (não que eu quisesse que ele se tornasse você, porque ele tem coisas únicas que eu amava e não tinham relação nenhuma contigo) mas é que as coisas que eu citei lá em cima que você possui são essenciais pra mim. É desse tipo de pessoa que eu preciso estar cercada. Preciso de alguém que encare a vida como eu, que me abrace e diga que eu sou especial. E ele? Aquele sorriso mais lindo de todos, com uma covinha só pra mim, já não era motivo suficiente pra me fazer ficar. Ele só se preocupou em me fazer a mulher mais feliz do mundo muito depois de eu já estar tão triste que já não tenho nem expectativa de ficar bem por dentro tão cedo. Aí vem você, meu melhor amigo depois dele, mesmo que eu não possa mais contar tudo pra ele como posso pra você e resolve se apaixonar, namorar, noivar e casar em menos de um ano.
Ele foi me deixando aos poucos, até que eu o deixei e você, você vai casar. Cara, que merda isso. 
Eu não consigo parar de chorar, desculpa, mas eu não conseguiria ir e ver você escapulindo dos meus dedos, como tantos outros amigos que eu tive e perdi. Eu não aguento tanto, eu sou fraca pra essas coisas. Eu vou me despedindo aqui, te pedindo desculpas por não estar lá pra te dar os parabéns e te dizer que isso é só porque eu te amo demais.

M.



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Conversa de Madrugada

A boca disse o nome dele de novo.
- Mas que merda - gritou a laringe - cansei de ficar gastando minhas cordas vocais com a mesma vibração - Boca, não dá pra dar uma maneirada não?
A boca, levemente ultrajada, logo replicou:
- Culpa dos olhos... Tavam lendo uma coisa naquela internet e me obrigaram a falar.
- Epa, epa, ela manda eu ler, eu só obedeço. - os olhos estavam cansados - Esse nome me dá vontade de cometer auto-flagelo, sério, vou dar glaucoma pra ela.
Todos riram, adoravam debochar dela, besta, ficava mandando eles fazerem a mesma coisa todo dia.
- Aí vem aquela dor bem profunda - gritou o cérebro lá de cima - Ela tá lembrando de TUDO relacionado a ele.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI - o pâncreas gritou
- Que que foi, cara? - perguntou o estômago, seu vizinho.
- Mas que diabos. Essa menina tá até me fazendo ficar doído. - ele suspirou longamente, se livrando um pouco da dor latejante - Ela nunca vai parar de lembrar dele não?
- Sei lá, cara. Espero que sim, porque as consequências são brabas. Primeiro vêm aquelas borboletas gigantes e depois uma dor que dá vontade mesmo é de chorar.
- Chorar... Taí, é isso mesmo que dá vontade.
Então começaram todos os afetados a chorar com muita vontade, mas muita vontade mesmo, todo o corpo dela estava sendo inundado por lágrimas salgadas que não faziam nada de bom pra sua pressão arterial, então o coração pôs-se a chorar também.
Aí bem depois, quando tudo tava bem esgotado e os dutos lacrimais já estavam ressecados, o cérebro resolveu guardar as lembranças dele na gaveta que fica lá pras bandas do lobo frontal, pra ela conseguir escrever sobre tudo isso.
As mãos então guardaram o velho diário debaixo da cama.
E ela dormiu, o Sol nasceu e de repente tudo ficou excepcionalmente maravilhoso.

domingo, 5 de agosto de 2012

Nunca


Dê pause em todas as músicas, coloque um fone de ouvido, aperte o play e feche os olhos.