domingo, 15 de agosto de 2010

Sincer Idade

— Você acha que sinceridade é boa em qualquer situação? — ele perguntou ao se aproximar e sentar-se na cadeira em frente à ela.
— Sim. Torna as coisas mais emocionantes, ao menos.
— Mas você é a favor da sinceridade a todo momento ou apenas quando a pessoa tiver vontade?
Ela o encarou séria, sem nada dizer.
— Tá, não precisa responder. — riu e passou a mão pelo cabelo, tirando os lisos fios loiros que caíam sobre sua testa — O ponto que quero chegar é que, se você pensa assim, por que não age assim?
Ela continuou encarando-o enquanto segurava o livro aberto em suas mãos, apoiada sobre a mesa.
— É sério, isso é tão irônico. Você não acha?
— Bom, já que estamos falando de sinceridade, vou lhe dizer uma coisa que você já deve saber: eu odeio rodeios. Vá direto ao ponto.
— E você não acha que agora há pouco eu criei o devido ambiente para discutir isso contigo? Eu fiz algo que você detesta justamente para você confirmar o que já sei de você. Por exemplo, você diz odiar rodeios. Sendo assim, por que você faz rodeios com os outros em vez de ser direta?
— Vai me dar lição de moral agora, é? — e voltou a atenção para o livro, mostrando-se indiferente ao que ele dizia.
— Está vendo? Está fazendo de novo. — ele recostou-se na cadeira, sorrindo. Ela olhou-o furiosa.
— O que você tem a ver com isso mesmo? — ela sorriu de maneira indelicada.
— Simplesmente tudo, querida. — ele sorriu de volta, apoiando o queixo sobre a mão.
— Céus, você me perturba às vezes.
— É meu dever. Agora, podemos pular as outras resistências e sermos sinceros?
— No final das contas, eu sou uma hipócrita e você sabe disso.
— É, tanto é que nem você mesma acredita em sua própria fala.
Ela passou o olhar pela biblioteca.
— Justo aqui você quer discutir isso?
— Justo aqui. Aqui e agora, não depois, nem amanhã.
— Pois bem. — ela fechou o livro, incomodada por ter de fazê-lo, e apoiou os braços sobre ele — O que quer?
— Já disse, meu bem. Por que você age diferente da tua filosofia?
— Não ajo diferente da mi-
— Nã-nã-ni-na-não... tsc tsc. — ele balançou a cabeça negativamente — Combinamos sinceridade.
— Ai, meu pescoço dói... — ela massageou para ver se aliviava.
— Não é teu pescoço, mas tua nuca.
— Devo estar cansada... — ela notou que ele ainda a encarava, paciente e à espera de uma reação dela. Conseguiu expressar incerteza em seus olhos e ele captou a mensagem não-verbal, dizendo:
— Você sabe. Pense bem.
— Medo?
— Você está me perguntando? — ele riu em um tom zombeteiro.
— Sugerindo uma resposta adequada a você.
— E por quê? Por que você tem que sugerir uma resposta adequada para mim e não para você mesma?
— Talvez seja adequada para mim, mas eu use da incerteza para te alcançar.
— Mas você já se alcançou?
Ela ficou em silêncio.
— Como você alcançará os outros se ainda não alcançou nem a si mesma, minha menina? De nada adianta todos esses livros e todo esse encanto que você tem por eles se você não experimentá-los de fato...
— Eu experimento, eu só excluo os outros da minha experiência.
— E isso é sábio? Isso é proveitoso para você? Porque o resultado é uma teoria ambulante, nunca experimentada nem sequer provada. Você fala tanto da tua vontade, por que não faz jus a ela? Para se manter intacta? Para não afetar os outros? Ou seria mesmo um medo das consequências? Medo de viver, querida? Falta de audácia, falta de vontade de arriscar?
— Me ajuda?
— Só posso te ajudar quando reagir e me responder. — e beijou sua testa.

Um comentário:

  1. NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSSA.
    Esse ficou bom demais, amiga.
    "— No final das contas, eu sou uma hipócrita e você sabe disso.
    — É, tanto é que nem você mesma acredita em sua própria fala."
    Amei isso, bem você. Quase nossa conversa sobre a continuação da campanha. (:

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