sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Outubro

Era alva, quase avessa ao sol, a pele dela. Também não gostava de tomar sol. Tinha os olhos doces e profundos, do tipo que quando você olha dentro deles, a única resposta que obtém é: você não tem ideia do que eu tive que passar, você nunca vai me conhecer inteiramente. Ela tinha uns gostos estranhos pra sua época, pra sua idade, ela era muito irônica, mas poucos sentiam a sutileza das suas ironias.
Sentada na cadeira ela desenhava letras, flores, estrelas, o que viesse na cabeça. Preferia tudo no mundo do que estar ali naquela hora. Não sabia se falava com ele, se o procurava. Não sabia se aquilo era o que ela realmente queria. Se era o que todo mundo superestimava ou subestimava ou nenhum dos dois. Compenetrada, fechava o lábio um contra o outro de leve e franzia a testa sem entender porque não conseguia desviar sua mente daquilo naquele dia, já fazia algum tempo desde o fim.
Estava caminhando em um shopping e haviam muitos jovens em volta, vestidos de preto, com cabelos espetados ou escorridos, com seus alargadores e tatuagens. Sentiu um frio percorrer a espinha, viu a menina da sala, a menina da sala dela falando com ele. A menina acenara com a cabeça, ele a fitava, apenas a fitava. Entrou no shopping o mais rápido que pôde, o estomâgo embrulhado, pôs a mão na barriga que doía de nervosismo. Depois respirou fundo, riu de si mesma e como uma maluca disse pra si que aquela não era uma reação racional.
"Você superou isso, você superou".
Na segunda a amiga a pergunta:
"Você conhece ele?"
Na mente um milhão de imagens dele, de falas, de cenas...
E sem alterar o tom de voz ou tremer ela respondeu apenas:
"Não. Não o conheço mais."

2 comentários:

  1. eitapô.
    senti a dor dessa menina ao dizer a última sentença, oh!
    lindo lindo, amazing. ♥

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  2. Amorilda... uau. Foi como se tivesse acontecido e você tivesse estado em algum lugar dentro de mim que agora narrou como narrador observador-experimentador (eu neologismando, oi).
    Chega me senti incomodada quando li, porque me pareceu muito real; me impressionei!

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