sábado, 11 de setembro de 2010

Too late to be too soon

Ela abriu a porta e se deparou com uma figura masculina um pouco mais alta do que ela, de jaqueta americana e mãos nos bolsos, carregando uma expressão distanciada, temerosa até, mas ainda rotineira.
— A Lu me disse que você estava...
— Seu maldito! Vá embora! — ela o interrompeu e, antes que fechasse a porta por completo, ele a barrou.
— Sua ingrata, eu vim aqui ver como você estava! — ele se inconformou com a reação agressiva dela. Eles ainda estavam emperrados na entrada da casa, ela do lado de dentro, ele do lado de fora.
— Pois bem, agora que já viu, pode ir! — apesar de fraca da gripe, fez força contra a porta a fim de fechá-la.
Ele então segurou seu pulso e, impedindo a porta com o pé entre o vão, fitou-a profundamente nos olhos. Estava quente, devia estar com febre. "Ou talvez seja o comportamento temperamental dela". Seus olhos marejavam e estavam avermelhados por causa da gripe, mas isso tornava a força que deles emanava mais perceptível ainda.
— Melody, chega disso, deixe-me ver como você está... — ele pediu.
— Eu estou cansada, Marcus. — ela baixou o olhar — Estou cansada e você me chama de ingrata. — ela desvencilhou o pulso da mão firme dele. Ele observou seus lábios. Estavam rachados — Marcus, a atriz era pra ser eu e não os outros... principalmente você, que é músico — ela o perfurou com o olhar obscuro.
— Melody, você está internalizando suas personagens. Acho que essa gripe veio em boa hora pra você dar um tempo no teatro, aquilo já está te afetando.
— Estou mesmo, Marcus? Estou mesmo? — ela enfatizou com impaciência — Então o problema é apenas eu, não é mesmo? Você e suas depressões repentinas nada tem a ver com todo esse teatro que vivemos, não é? Suas mudanças bruscas de comportamento não têm nada a ver, né? Oras, francamente... Eu pensava que você era diferente, eu pensava que você era verdadeiro, eu realmente pensava, mas você é só mais um deles! — ela vociferou.
— Melody, meça suas palavras ao falar comigo — fúria parecia repentinamente borbulhar dentro dele — Não sou um daqueles seus amiguinhos atores ou seja lá o que eles pensam ser.
— Justamente, Marcus! Você não é! — ela elevou a voz. A força de seus olhos pareciam ter se convertido em advertência.
Em seguida, uma crise de tosse a atacou. Marcus a observou em silêncio. Como consertar o inconsertável?
Em meio a tosse, Melody disse:
— Vá embora.
Cansado de insistir, Marcus a olhou insatisfeito. Deu às costas e encaminhou-se para as escadas, no seu rumo para ir embora. Melody mal esperou ele alcançar as escadas e já bateu a porta.

— Ué, mas já? — Lu estranhou ao ver Marcus se aproximar. Ela esperava sentada nas escadas da entrada do prédio, com um iPod na mão e apenas um fone no ouvido.
— Ela é impossível de lidar — ele resmungou sem parar de andar, quase bufando de raiva.

"Ele não percebe", Melody pensava ao observar Marcus se afastando e sendo seguido pela Lu pela janela da sala, os olhos marejando, "que toda vez que ele faz isso, ele me faz reviver o pesadelo que passei antes de ele aparecer".

2 comentários:

  1. WOOOOOOOOOOW!
    Senti meu coração saindo pela boca e sendo substituído por uma pedra de tão fantasticamente tocante que foi. :D

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  2. É complicado quando a gente complica.

    ;D

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