sábado, 10 de julho de 2010

Saudade, que assim seja.

— Eu sinto saudade de você.
Ela lançou-lhe um breve olhar de alerta antes de começar a guardar os livros na mochila. Ele, passivo, a observava fazer a arrumação, apoiado sobre as costas de uma cadeira à frente.
— Duanne, eu sinto saudade. — repetiu. Dessa vez, ela nem sequer encarou-o. Seu semblante estava sério, pensativo. Ao terminar, antes de fechar a mochila, repousou as mãos sobre a abertura da mesma e começou a falar, olhando-o atentamente.
— Cerneu, você sente saudade do quê? Porque eu, sinceramente, não acho que você sente saudade de mim. Você sente saudade do quê? Da minha aparência? Dos meus beijos, dos nossos abraços? Dos momentos que passamos juntos? Porque eu compreendo que você sinta saudade dessas coisas, mas uma coisa é certa: você não sente saudade de mim.
— Você tá falando do quê? — ele estranhou. Estava confuso, não entendia o que ela queria dizer.
— Estou falando que você não sabe diferenciar o que sente saudade de fato. — amarrou a corda que fechava a mochila e colocou uma das alças sobre o ombro direito, retirando-se em seguida. Cerneu seguiu-a.
— Será que dá pra você parar e me explicar o que está acontecendo?
Duanne parou e virou-se para ele, segurando a alça da mochila com a mão direita.
— O que está acontecendo, Cerneu, é que não tá dando mais pra mim. Cansei desse vai-e-vem, dessa nossa incompletude.
— Incompletude? Duanne, você tinha dito que me amava.
— E amo.
— E por que isso agora? Já não basta tudo o que temos que aguentar para ficarmos juntos, por que complicar mais ainda?
— Não estou complicando, eu decidi.
— Posso saber o quê você decidiu, exatamente?
— Cerneu...
— Duanne, independente do que nos aconteça, eu te amo. E você sabe disso. — ele segurou-lhe a mão. Contudo, ela desvencilhou.
— Eu sei, Cerneu. Acontece que eu não acho que devamos ficar juntos novamente. Vamos aprender a conviver com as lembranças que temos e deixar o que aconteceu no passado.
— Você ainda me ama? — ele descontinuou.
— É claro que sim.
— Então por que não ficamos juntos?!
— Cerneu — ela suspirou e continuou — Temos duas situações: uma de gostar e outra de ficar junto.
— Duanne...
— Não, me escuta primeiro. — impacientou-se e encarou-o de uma maneira afrontadora — Eu sou livre para te amar, e te amo. Mas, para ficar contigo, não sou eu quem decide, são as circunstâncias.
— Vão à merda essas circuntâncias! — interrompeu Cerneu, contestando o que ela dizia.
— Dessas circunstâncias, Cerneu, a principal que me fez tomar essa decisão foi você mesmo. — Duanne prosseguiu, ignorando o comentário dele. Ele silenciou-se para ouvi-la — Apesar de nossa sintonia, eu te sentia distante. Isso me assustava. Inúmeras vezes tentei nos aproximar, mas uma única pessoa não consegue manter a comunicação de um relacionamento, Cerneu. Eu já acho estranho nos amarmos sem nos conhecermos tão bem assim, mas eu aceito. E acredito. Porém, ficarmos juntos assim, do jeito que estamos, já é pedir demais.
— Cara, eu não acredito que depois de tudo o que passamos e aguentamos você vai fazer isso... Desistir assim, sem nem...
— Espera, como é que é? — incontendo-se, ela interrompeu-o rindo debochadamente — “Aguentamos”? “Desistir assim”? Cerneu, durante todo esse tempo, quem lutou pela nossa relação, quem aguentou tudo de todos os lados, além de ter tentado fortalecer o que já tínhamos, foi EU! Fui EU, Cerneu, que me privei de tudo e de todos por livre e espontânea vontade enquanto você “seguia seu rumo”, enquanto você apenas sentia “saudade”! Tudo o que passei e tudo o que sofri foi por você, por mim e por nós! Eu não sentia saudade apenas do que passamos, mas eu sentia FALTA de VOCÊ!

Calaram-se. A direção do olhar dele estava baixa, sem um foco de atenção. Parecia vasculhar aquele chão, porém procurava apenas situar-se. Mostrava-se soturno, da mesma maneira que Duanne o vira em outras ocasiões.
— Vejo que nossos pontos de vista divergem demais. — não levantara o olhar.
— Sempre divergiram, Cerneu.
— Assim como o reconhecimento.
Ela não respondeu. Sabia que ele discordava veementemente do que ela dissera.
— Devemos terminar mesmo então... — ouvi-lo dizer tais palavras eram mais impactantes do que em seus pensamentos.
— É. — ela engoliu, todavia sentia apenas um nó na garganta. Mesmo decidida, essa história ainda lhe afetava.
— É isso o que você quer? — ele subitamente encarou-a profundamente nos olhos. Estava mais sério do que nunca. E distante.
— É. — séria, Duanne sentiu seus olhos queimarem.
— Bom... que assim seja então.

2 comentários:

  1. Doeu em mim, sério.
    imaginaemvocê, né!
    que merda! ><

    Sério, chega quis chorar.

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  2. "Uma única pessoa não consegue manter a comunicação de um relacionamento".

    Devia estar entalado tudo isso.

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