domingo, 4 de julho de 2010

História esquisita sobre gente esquisita.

Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas me sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só esta vontade quase simples de estender o braço para tocar você.
Faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação/impressão/ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque depois da compreensão que conseguimos.
Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha para mim, sorri. Quanto tempo dura? Há pouco caiu uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Pedi para saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá me dizer: não.

Há uma espécie de heroísmo, então quando estendo o braço, alongo as mãos, abro os dedos e brota. Toco. Perto da minha a boca se entreabre lenta, úmida, cigarro, chiclete, vodka, vermelha, os dentes quase se chocam de tanta vontade. Amanhã não sei, não sabemos.

Pensei em você. Eram exatamente três da tarde quando pensei em você.
Sei, porque sacudi a cabeça como se você fosse uma tontura dentro dela e olhei para o relógio da cozinha. Ah, no fim destes dias de início de inverno, entre os engarrafamentos de trânsito, as pessoas enlouquecidas e a paranóia à solta pela cidade, no fim destes dias, encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que passa a mão pelo meu rosto, pelos meus cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar na curva do teu ombro.

Você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem. O telefone toca três vezes. Isto é uma gravação deixe seu nome e telefone depois do bip que eu ligo assim que puder, ok?
O cheiro do teu corpo persiste no meu durante dias. Guardo, preservo, cheiro o cheiro do teu cheiro grudado no meu. E basta fechar os olhos para mergulhar novamente em você. Alguma coisa então pára, todas as coisas param. Os automóveis nas ruas, os relógios nas paredes, as pessoas nas casas, as estrelas que não conseguimos ver aqui do fundo da cidade escura. Olho no poço do teu olho claro, meia-noite em ponto. Quero fazer um feitiço para que nada mais volte a andar. Quero ficar assim, no parado.
Fala fala fala. Estou muito cansada. Já não identifico nenhuma palavra do que você diz. Apenas me deixo embalar pelo ritmo de sua voz, dentro dessa melodia monótona angustiada perplexa repetitiva.
Quase três da manhã. Não temos aonde ir, nunca tivemos aonde ir.
"Vamos parar por aqui". "Quero acordar cedo, caminhar no parque, parar de beber, parar de fumar, parar de sentir... Estou muito cansado". "Não faz assim, não diz assim". "Eu tenho medo". "Medo é culpa, medo é moral. Não vê que é isso que eles querem que você sinta? Medo, culpa, vergonha..." "Eu aceito, eu me contento com pouco". "Eu não aceito nada nem me contento com pouco".
Eu quero muito, eu quero mais, eu quero tudo. Eu quero o risco. Nada mais importa. Agora você me tem, agora eu tenho você.
Nada mais importa. O resto? Ah, o resto são os restos. E não importam.
Largue tudo. Venha comigo para qualquer outro lugar. Agora, já. Peço e peço e não digo nada, mas peço e peço diga, diga já, diga agora, diga assim.

Você não diz nada. Você não me vê por trás do meu olho. Você não me escuta por trás da minha boca. Você planeja partir para um país distante, sem mim, de onde muitos anos depois receberei a carta de um desconhecido com nome impronunciável anunciando a sua morte. Foi em abril dirá, abril ou maio. Ou setembro, outubro. Os mais cruéis dos meses. Tanto faz, já não importará depois de tanto tempo, numa cidade remota.
Lombra.
Aqui parece que o tempo não passou, quero te mostrar um vitral, esta sacada, aquele prédio, monumento, tudo que mais gosto. Quero dividir meu olhar, desaprendi de ver sozinha e agora que tudo perdeu a magia, se magia houve (e havia), e não consigo mais ver nenhum herói intergaláctico em você... E agora que vejo apenas um rapaz, olho para tudo isso que vejo e não tem outra magia além dessa, a de ser real, e vou dizendo lenta, como quem tem medo de quebrar a perfeição das coisas, e vou dizendo leve, então, na tua alma fria, e vou dizendo louca, e vou dizendo longo sem pausa — gosto muito de você gosto muito de você gosto muito de você.
Por favor, não me empurre de volta ao sem volta de mim, há muito tempo estava acostumada a apenas consumir pessoas como se consome cigarros: a gente fuma, esmaga a ponta no cinzeiro, depois vira na privada, puxa a descarga, pronto, acabou.

Desculpe, mas foi só mais um engano? E amanhã não desisto: te procuro em outro corpo, juro que um dia eu encontro.


Não temos culpa, tentei.


Tentamos.

2 comentários:

  1. a gente foge foge foge pra parar no mesmo lugar.
    às vezes só não tentamos o suficiente.

    muy bueno, baby!

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  2. Adorei a narrativa!
    Uma das partes que mais gostei foi essa:

    "Há uma espécie de heroísmo, então quando estendo o braço, alongo as mãos, abro os dedos e brota. Toco. Perto da minha a boca se entreabre lenta, úmida, cigarro, chiclete, vodka, vermelha, os dentes quase se chocam de tanta vontade. Amanhã não sei, não sabemos."

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