quinta-feira, 8 de julho de 2010

Amor de menos

Tinha sentido uma vontade sobrenatural de ligar para alguém que não me atenderia mais, tenho vontade de dizer que faz falta o que não vivi.
Depois desse longo período ausente de sentimentos, pude perceber as coisas com devido raciocínio.
Ele não me via de verdade, eu não o via de modo algum, mas tinha o coração pálido. Tudo parecia tão “quase”, quase lá, pela metade, sempre faltando, faltando o fim. Como se as mãos fossem suspensas no meio de um gesto, a voz contida no meio de uma palavra...
Ele não via o meu silêncio nem meu movimento dentro dele.
Não que fosse amor de menos, ele dizia depois, ao contrário, era amor demais... Você acreditava mesmo nisso?
Dizer-me que tinha certeza de que senti algo, logo eu, que nunca amei ninguém, que prepotência.
Engraçado que tudo aquilo que eu esquecia ou negava, soube vagamente em plena queda, era o que eu mais era. O pior não seria nunca a morte real, o nada e o nunca, pior era não lembrar, não poder ou não querer lembrar. Expurguei qualquer pensamento semelhante, como quem tenta matar memórias indesejáveis para passar, supostamente, a vida a limpo. Como se fossem demônios querendo invadir meu ser, que tão imaculado era sem as lembranças.
Porém, continuamente me indagava, por que você se foi, se sabia que haveria uma distância e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto?
Senti um imenso vazio no começo. Parei de reconstruir a vida. Parei de ser e de fazer qualquer outra coisa além de esperar que ele voltasse. Seria tão perfeito se fosse exatamente assim como penso que lembro, anos depois, que ficou como se tivesse sido...
Há tantas coisas que eu gostaria de lhe dizer, mas eu não sei como. Porque talvez, você seja o único que possa me salvar. E mesmo depois de tudo... Ah, querido, eu estou tão bem.
Não será mais preciso gastar minha caligrafia, nem papel, nem tempo, nem vida para escrever sobre você.

Às vezes a gente vai se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é.

4 comentários:

  1. já disse
    "Há tantas coisas que eu gostaria de lhe dizer, mas eu não sei como. Porque talvez, você seja o único que possa me salvar. E mesmo depois de tudo... Ah, querido, eu estou tão bem." Essa parte tocou meu coração inexistente. xD
    A gente se fechou demais.
    Por amor de menos que ele sentia.

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  2. "Às vezes a gente vai se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é."

    Verdade.

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  3. "Expurguei qualquer pensamento semelhante, como quem tenta matar memórias indesejáveis para passar, supostamente, a vida a limpo. Como se fossem demônios querendo invadir meu ser, que tão imaculado era sem as lembranças."

    Identifiquei-me.

    Por que será que costumamos nos considerar à parte das lembranças? Será mesmo que existimos sem elas?

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  4. Não, nosso corpo é feito de memórias.
    Esses traumas - ou não traumas - nos "afetam" e mesmo que queiramos muito esquecê-los ou renegá-los, não há como fingir que eles não nos fizeram quem somos hoje.

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