sexta-feira, 15 de maio de 2009

Pelo buraco da fechadura

Ela estava sentada numa cadeira a poucos metros dele.
Ele parecia intertido demais em seu rabisco para prestar atenção na existência dela.
Os amigos dele faziam gracinhas para chamar a atenção dela. Ela ria, fingia que ficava com raiva e virava pra frente de novo.
Só ele que não a percebia.
Não, ele falava com as garotas extremamente belas, com as pessoas "legais".
"Qual é o meu problema?" ela se indagava perdida em pensamentos. Mas as palavras de uma música silenciavam todos os outros devaneios insanos...
"Eu fiz de tudo pra ganhar você pra mim, mas mesmo assim..."
Ela o olha. Vê seus pés. Eles batiam ritmicamente.
Em qual música ele estaria pensando? Olha mais um pouco seus tênis, e agora ele muda de posição. Se pôs para frente da carteira, num movimento interessado, mas ela sabe que ele não está nem aí.
Ela sobe um pouco mais o olhar... agora vê suas pernas, seus joelhos, suas coxas; perfeitamente desenhadas através da calça.
Definidas. Fortes.
Agora voltara a se concentrar em seu desenho, ele parece viver um mundo a parte.
"Quem me dera entrar nesse mundo".
Ela não faz nada. Ela não pode fazer nada.
Nada além de observá-lo todos os dias de longe. Do buraco da fechadura.
Se sente uma tremenda idiota por se sentir assim, espera que ele nunca descubra...
Nunca descubra que ele a faz ficar nervosa, que quando fala com ela suas mãos ficam frias, a ponto de só dizer besteiras e agir como uma completa imbecil, que faz seu estômago dar um 360° e seu coração fazer um solo de bateria fora do ritmo.
Ela espera isso, mas mal sabe ela que ele já sabe.
Só não nessas proporções.

Os olhos escuros e perigosos dele cruzam todos os cantos ao redor dela, mas nunca com os dela.
Ele tem medo de olhar a fundo os olhos da garota.
Todos se levantam. Conversam. Saem.
Ele se ajeita na cadeira e vira de lado. Está conversando com uma menina loira e bonita. Ela sorri meigamente para ele.
Ela observa, e mais uma vez espera que ele não descubra todas as besteiras que pensa, as tolices que sente. Nada se compararia com tamanha humilhação.
Afinal, isso tudo é babaquice.
Mas amanhã ela continuará a observá-lo pelo buraco da fechadura, sem se mexer, sem falar.
Só uma mera espectadora da vida de outro alguém.

Se ao menos ele notasse que eles são iguais...
Quando ele se tocar talvez seja muito tarde, talvez o tempo tenha acabado.
(Mas a verdade é que o tempo nunca acaba).

"Eu fiz de tudo pra você perceber que era eu..."

2 comentários:

  1. MUITO BOM! *-*
    Why don't you go inside the "box" and enter his life once and for all.
    Once he gets you, he'll never let go.

    *-*
    Muito bom, amr, sério mesmo.

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