sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Marcuzzi

- A noite está fria hoje...

Denise se aproximou agasalhada, segurando uma coberta cinza macia como se a oferecesse. Marcuzzi mal a ouvira se aproximar e custou a se desconcentrar de suas divagações.

- Obrigado - disse após analisar a coberta. Notou que Denise, ao sentar-se ao seu lado no palanque de madeira marrom-sela da varanda, pretendia ficar por ali. Ao lado dele, ela passou a observar os poucos e espalhados pontos brilhantes no céu noturno enquanto segurava uma generosa caneca vermelho-persa de chocolate quente.

Permaneceram ali por cerca de 40 minutos, contemplando a brisa gelada cortar o silêncio noturnal. Denise sentia-se incrivelmente leve e bem-humorada, apesar da reflexão perturbada de Marcuzzi. Olhou para a sua esquerda e ele praticamente não se movia, sequer piscava. Que mania ele tinha de fechar a cara e apoiar seu queixo sobre sua mão! Ele é preocupado demais, introspectivo demais... Inúmeras vezes já o vira naquela mesma posição; o dedo indicador curvado de maneira a quase ocultar-lhe os finos lábios ao passo que o polegar repousava lateralmente sobre seu maxilar. "Ê Marcuzzi... Eu poderia escrever um livro sobre você...", pensou Denise após ter desviado seu olhar para o gramado adormecido no quintal.

- O que você está fazendo aqui mesmo, Denise? - ele perguntou momentos depois, ainda imóvel. Apesar de soar indiferente, sua voz transpareceu um quê de inquietude.

- Você quer conversar a respeito do que te incomoda? - Denise aparentou uma cautela calculada, mas sabia muito bem como lidar com ele.

- Muitas coisas me incomodam - ele sorriu para si mesmo, esticando a perna até então dobrada para atenuar sua rigidez e livrar-se da câimbra - Mas obrigado.

Ele ainda não olhava em seus olhos. Denise já se acostumara, ele evitava levantar o olhar até para os próprios amigos. Já foi muito ele ter se permitido um sorriso agora há pouco!

Marcuzzi suspirou e olhou novamente para o céu. Pelo jeito ela não sairia dali tão cedo mesmo. Então, frustrado por ter sua solidão interrompida, ele se levantou.

- Vou dormir, o sono está batendo já.

- Ok - em outras circunstâncias saberia que ele estaria mentindo, mas sua expressão se apresentava cansada de fato - Boa noite.

- Obrigado - devolveu-lhe a coberta e adentrou.

Denise observou-o se afastar lentamente no interior da elegante casa, abaixando o olhar para a coberta em seguida. Alisou-a e a amontoou em seu colo, abraçando-a.
"Eu é que agradeço, Marcuzzi. Eu é que agradeço...".

Um comentário:

  1. NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSSA
    que história mais maravilhosa do mundo, é tipo, a mulher por trás desses homens filosóficos.
    Amei. Amei demais.

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