domingo, 23 de janeiro de 2011

Móias e violão

- Oi, vem pra cá.
- Agora?
- É. Traz o violão.
Mía estava sentada no piso de granito da entrada de seu prédio quando ele chegou. Uma de suas pernas estava dobrada verticalmente e servia de apoio para seu braço, que sustentava a mão com as unhas levadas aos lábios. Usava um casaco de malha verde-desbotado, fazia um estilo casual e estava com o cabelo desarrumado. Ainda assim, ela conseguia ser atraente. Mía possuía uma beleza natural e era conhecida por isso. Olhava para o horizonte, parecendo distraída.
- Tá aqui faz tempo, Mía?
- Han? Ah, não... Acabei de descer. Senta aí.
Ele sentou-se ao seu lado direito apoiando o violão sobre suas pernas cruzadas. Também usava um casaco, mas preto, e seu cabelo estava amarrado.
- Que milagre em pleno sábado à noite você aqui.
- É, ninguém me chama pra sair. Sou forever alone.
Ela sorriu como quem tem poucos amigos e ele notou uma dose de melancolia em seu olhar.
- Ah... Eu já cansei de te chamar pra sair. Você nunca pode.
Ele abriu o zíper da capa protetora do violão.
- Aprendeu alguma música nova?
- Aprender? Eu não aprendo. Eu sei. Todas.
Sorriu com a palheta entre os dentes enquanto pegava o violão.
- Sei, e modéstia é o teu segundo nome, né... – ela riu.
- Conhece esta aqui?
Ele começou a tocar alguns acordes.
- Conheço... “Feel the rain”. Por que você não canta?
- Porque eu não gosto de cantar.
Ele esboçou um sorriso sem parar de tocar. Ela o encarou como se desconfiasse dele.
- Deveria tentar. Eu gosto da tua voz.
- Nada. Mas o quê você tem, Mía? Por que me chamou?
Ele voltou o olhar para o violão.
- Nada. Só estou pensativa.
Ela voltou a olhar o horizonte. Ele continuou tocando. Nos próximos momentos seguiu-se apenas o som da música, quando ele bruscamente parou e perguntou:
- Pensando no quê?
- Na vida... Mas nada que valha a pena ser comentado.
Ele voltou a tocar outra música.
- Acho que ando meio melancólica ultimamente...
- Acha que não percebi?
- Você também fica assim?
Ele diminuiu o ritmo dos acordes e ficou pensativo por instantes, olhando para o horizonte.
- Sim... Por causa da Ani...
Ele baixou a voz antes que terminasse de pronunciar o nome completo.
- Pode falar, Moris. Não é segredo, eu sei que vocês estão saindo. Você e a Anisia, apesar de eu não gostar dela.
- Por quê mesmo?
- Moris... Cara... Eu já te disse o quê penso dela.
Ela mirava o granito e ajustou uma madeixa de cabelo para trás de sua orelha. Ele calou-se e lançou o olhar para uma direção à diagonal de onde se encontravam.
- Espero que você esteja errada. É o teu irmão vindo?
Um homem poucos anos mais velho do que eles, sério e não muito alto, havia acabado de chegar e se aproximava de onde eles estavam.
- Não vai subir muito tarde, Mía. Moris.
Mal olhou para a irmã e apenas acenou com a cabeça ao “cumprimentar” Moris, logo subindo para seu apartamento.
- Edu simpático como sempre.
Moris ironizou e voltou a atenção para o violão. Ainda estava incomodado com o comentário de Mía que o fez se lembrar do que ela lhe dissera acerca de Anisia.
- Acho que sou homo.
Moris não tinha certeza se ouvira direito.
- Quê, Mía?
- Acho que sou homo - ela repetiu indiferentemente, olhando para o horizonte novamente - Mas só descobri recentemente, depois da festa do Gustavo, pra você ter noção.
Moris estava imóvel, não sabia bem como reagir e Mía percebeu.
- Fica tranquilo, foi muito depois que a gente... Assim, não foi tua culpa - ela pareceu querer se explicar a ele.
- Eu só estou... surpreso. Muito. Mesmo. Não esperava...
- O quê? É tão anormal assim? – ela riu.

2 comentários:

  1. Na hora que ela falou da Anisia, eu tava crendo que ela era apaixonada pelo Moris. Aí vem esse final surpreendente, ri demais.
    Muito legal, abiga.
    (L)

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  2. OW, juro que até hoje eu quero saber o que a Mia pensa da Anisia. HASUHASUHAS

    Amei o desfecho, ficou intrigante e surpreendente, amei amei amei amei amei mesmo.

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