segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

ἴδιος (idiótes)

"O negativismo positivista sufoca a imaginação que é a alma de um pensamento em palavras sempre mal expresso, isto é, expresso sem o rigor que se exige da expressão científica. A imaginação é a faculdade, a capacidade, a virtualidade do imaginário; e o imaginário é o possesso tecedor de imagens; e as imagens são lugares, pontos de encontro, centros coloquiais de coisas afins e confins, que uma pseudo-realidade separou. Só nos sonhos elas se encontram e convivem por instantes que valem eternidades. Mas que importam os sonhos para quem já não pode crer em que os deuses no-los enviem, como sinais de via aberta para livre-trânsito? Presumivelmente o trânsito se fechará a poucos passos andados à superfície do que abusivamente se chama realidade. Que importa? Pior para a realidade! Muito pior ainda para uma realidade que é sempre a dos outros. Mas o pior de tudo, para os outros, pode ser o melhor de tudo para mim. Talvez mereça que me chamem de idiota, podem fazê-lo, no sentido etimológico do grego ou no sentido comum do vernáculo. Neste, sofro de loucura mansa; naquele, sou portador de características incomuns. Posso associar os dois, deixá-los associados, fundidos um no outro, até que me mostrem o que seja realmente real, mas não por sufrágio da maioria. Por enquanto, nada feito! Os outros que façam o que acho inútil fazer. Porque Realidade talvez seja o oposto da Objetividade, e muito bem se pode dar o caso de o idiota já se encontrar instalado na mais real das realidades, distraidamente, sem perseguir qualquer propósito definido, só por recusar a quintessência ou o refugo do pensamento sensato e ajuizado dos outros. Não estou pronunciando outro elogio da loucura, porque ninguém será louco por exortação alheia. Só sei, através de Platão, que o sair fora de si ou o banir-se de si próprio, é uma bênção divina, um inestimável dom dos deuses. Questão é só a de não ser louco por querer. Ou de não querer distinguir-se dos outros, por desafio ou acinte. Não sabem, os que assim fazem, quantos os verdadeiros loucos se riem deles. Loucura não é extravagância, porque esta só é o mais significativo sinal da imbecilidade de quem não pode achar o caminho de sua casa, de quem, não sofrendo de nostalgia, nem o quer achar. Se Ulisses fosse extravagante, em vão o esperaria Penélope; a Odisséia não teria chegado ao fim. Não quero que ninguém pense que orgulhosamente estou fazendo de insensato. Sou lucidamente lúcido e, como tal, prosseguirei."

Mitologia, de Eudoro de Souza (págs. 112 e 113).

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